Sempre me
fora dito que os corvos são criaturas malignas que só trazem desgraça e morte
por onde passam.
Nunca
acreditei em tais lendas, afinal, são apenas lendas. Porém sempre notei um
curioso fato, sempre que alguém morria em algum lugar havia um corvo perto de
seu corpo ou até mesmo pessoas que vieram a morrer tempos depois eram vigiadas
de longe por um corvo.
Com o
passar do tempo nosso pequeno e pacato reino se envolveu em uma terrível e
sangrenta guerra com um reino vizinho. A partir de então eu via muitos corvos e
com uma frequência assustadora. Não tardou muito para que eu fosse recrutado a
lutar nos campos de batalha. A guerra já durava anos e não acontecia nada além
de sangue, morte de ambos os lados... e é claro, os corvos.
A
situação começou a me desesperar quando passei a ter como primeira visão todos
os dias ao acordar um corvo negro de olhos vermelhos comendo carne de um
cadáver ou até mesmo com o bico e as penas manchados em sangue. Essa guerra
tinha que acabar logo ou não haveria sobreviventes, pois nos anos que se
passaram já haviam morrido tantas pessoas que dezenas, não, centenas de vilas e
vilarejos de ambos os reinos encontravam-se desertos.
Guerreamos
com bravura por tanto tempo que atacar com a espada e defender com nossos
escudos eram o praticamente gestos automáticos, fazíamos isso sem nem perceber.
Porém, um a um meus companheiros foram abatidos ou pelos inimigos, ou por
doenças ou pela exaustão. Foi horrível!
Não
tardou muito até que nossos exércitos se resumiram a um único homem de cada
lado. Eu e o rei inimigo, Meu rei infelizmente havia morrido com uma flecha
certeira no coração. Hoje, num dia nublado, num campo aberto, estávamos apenas
eu, meu inimigo e é claro, os corvos. Poucos metros a minha frente havia uma
espada cravada no com a lâmina no chão e apoiando-se sobre o punho havia um
corvo visivelmente sábio, com suas penas negras como a mais profunda noite e
seus olhos mais vermelhos que sangue ou brasas.
Ao
primeiro pio do corvo disparei na direção de meu inimigo tão rápido que antes
mesmo que ele percebesse eu já o tinha transpassado com a espada, cortando seu
coração ao meio. Deixei o corpo cair para trás no chão sem que eu retirasse
minha espada. Sentindo-me vitorioso virei-me a volta dando um urro de vitória
com meu braço direito estendido aos céus tempestuosos. Percebi que o corvo
ainda estava repousado tranquilamente na espada e me observava com interesse,
após seu pio eu senti a exaustão e a dor de todos os ferimentos que tantos anos
de batalha me atacando todos ao mesmo tempo.
Desabei
no chão caindo de costas e vi o corvo alçar voo em minha direção e pousar em
minha barriga, senti a agonia de suas garras caminhando até que ele estivesse
parado em meu peito me olhando no fundo do olhos como se pudesse ver minha alma
com aqueles olhos vermelhos e brilhantes. Minha visão escureceu e antes de eu
perder a consciência ouvi o corvo falando em minha mente.
"Hoje
a vitória não pertence a você!"
Essa é a
última coisa de que me lembro...
Autor: Hugo Antônio

